Complexo Complexo

Alguma coisa sobre como quase enlouqueço.

Como ser um bom cidadão

Viernes, 25 de Abril de 2008

1 - Acorde cedo todos os dias e se prepare para ir para um emprego que você detesta,  passar as nove horas mais odiosas possíveis. Você deve sair bem cedo, antes do sol nascer, pra poder pagar os gastos que você faz para "desestressar" do trabalho;

2 - Entre em um trem lotado, cercado de todas as pessoas hostis do mundo, capazes de matar apenas para poder sentar e dormir por menos de uma hora. Quando acordam, são capazes de matar novamente para descer rápido do trem, e subir imediatamente no metrô que vai levá-los à porcaria do trabalho que eles têm (e odeiam). O objetivo é chegar bem cedo, e ficar bem visto pelo patrão (este sim odiado de verdade);

3 - Chegue em seu serviço, e fale "bom dia" para as 75 pessoas do seu setor, mesmo quando você não está em um bom dia, e muito menos deseja que todos eles tenham um bom dia. Mas todos o fazem, então não falar bom dia para aquela piranha do PABX pode ser sua sentença de anti-social dentro do ambiente de trabalho;

4 - Trabalhe como um condenado por uma empresa que não é sua, e não hesitaria em te demitir sem justa causa uma semana antes de nascer seu filho. Pra eles você é apenas um número que deve gerar produção, e esta por sua vez gerar lucros. Tudo é descartável, dispensável, substituível, como os copos de plástico onde você toma café toda manhã pra compensar sua noite de sono mal aproveitada;

5 - Saia do trabalho, semi-consciente, e encare a segunda parte da sua rotina (lê-se mesmice de todo dia). Suba novamente no maldito trem lotado, e dirija-se à faculdade. Lá vão te ensinar com fazer um novo trabalho, que vai te consumir e desgastar, até mais do que o seu atual. Mas claro você vai ganhar mais, e aí poderá fazer dívidas maiores que vão te preocupar muito mais, e tornar seu trabalho mais amargo;

6 - Voltando da faculdade, você olha pela janela e vê o mundo passando por você, e sua mente inerte, imutável. Todos os trilhos e asfaltos passam em vão pelos seus pés, e você não deixa nenhuma marca. Sua importância no mundo então se torna questionável, até que um desconhecido qualquer começa a falar da vida dele, e querer dar conselhos para sua vida, sendo que ele está na mesma lama. É quando sua mente sagaz percebe que todos aqueles conselhos são aplicáveis à vida dele mesmo, e que ele fala o que gostaria de ouvir. Aí você percebe que ninguém fala o que você quer ouvir, que nenhum ombro acolhe sua cabeça. É hora de sorrir, olhar pra janela, ignorar o desconhecido e cantarolar qualquer canção sem sentido;

7 - Hora de chegar em casa, e passar uma água no rosto.Você olha no espelho, e tudo o que vê é um espantalho urbano. A imagem destruída da sua face, depois que o mundo tentou fazer você chorar, e você com muita firmeza se conteve. Agora sua farsa desatina, só tem você, o espelho, a janela e a cortina. As lágrimas pingam pelo seu rosto, e você sente vontade de gritar. Mas não pode, é muito tarde da noite e pode incomodar o infeliz do seu vizinho. Semi-conformado você deita sobre uma cama fria e tenta engolir os seus soluços até que o sono venha e leve sua consciência até a fatídica manhã seguinte.

Memórias Fragmentadas

Sábado, 19 de Abril de 2008

Os olhos percorrem o horizonte
Em busca de qualquer coisa que valha viver
Minhas mãos percorrem meu corpo
Em busca de algum conforto, prazer
Elas tocam uma pele fria, inanimada
Um dia essa pele gozou a vida plenamente
Agora apenas cobre matéria adormecida
Enquanto minha mente vasculha memórias fragmentadas
Encontros, desencontros, dias perfeitos
Perdidos na insanidade da mágoa, em frangalhos
E o meu mundo perde todo o sentido
Agora a luz de um poste me lembra a Lua
Agora a minha pele, me lembra a tua

Flor Amarela

Viernes, 18 de Abril de 2008

Sem dores e sem medos vou amar essa morena
Vou descer geleiras, nadar mares
Escalar cordilheiras, ganhar ares
Tudo em busca de uma flor amarela
Rara e única, que nasce entre duas montanhas
Perto de uma nascente, onde nunca pisou ninguém
Sonho com ela todas as noites
Envolta na escuridão dos seus cabelos

Casamento

Gemidos de prazer
Suspiros de alívio
Mão suadas
Cada um vira para um lado
Silêncio

Candelabro

Domingo, 6 de Abril de 2008

Candelabro
Aquele que segura a vela
Coadjuvante
Sem brilho
Sem expressão

Abominação

Sábado, 5 de Abril de 2008

Posso deixar minha cabeça repousar sobre seu ombro? Você dá licença pra uma abominação? Eu espero escurecer, e as ruas ficarem desertas para nós sairmos. Eu espero as bruxas e lobisomens ir pra praça, para nós vermos os botões fechados das flores. Entendo que apesar do seu prazer, você não quer ser vista com alguém como eu. Isso é feio, decadente e degradante. Todos esperam o melhor de você, e não uma decepção como essa. É isso mesmo. Abuse de meu corpo, consuma minha alma, mas tudo em sigilo. Toque minha pele suja longe dos olhos imaculados desta sociedade. Fale-me de amores eternos, bem perto dos ouvidos. Feche meus olhos com seus dedos, e vagarosamente beije meu peito. Faça  meu coração pular, desejando desesperado sair do meu corpo, e ser envolvido em suas mãos macias. Faça eu acreditar, faça eu acreditar que não serei mais tão repugnante. Que a partir de agora, serei verdadeiramente amado. Me faça acreditar que há lugar para os que amam por aluguel. Me faça acreditar que meu corpo violado ainda tem alma.

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